O trauma psicológico é
dos danos emocionais mais dolorosos que o ser humano pode reter dentro de si,
resultando em muitas outras patologias e comportamentos. Assim, torna-se um
desafio poder representar narrativamente algo que é tão do interior de uma personagem.
Trata-se mais do que simplesmente representar essa experiência de dor e
sofrimento emocional ou físico. É penetrar nos medos e exibir todas as conexões
que levam ao trauma. É algo que exige grande empatia.
John Crowley, o realizador, parte nesta demanda de explorar o que é o trauma e como tal pode condicionar a vida de uma pessoa. Em O Pintassilgo (ou The Goldfinch, título que partilha com o romance original de Donna Tartt, vencedor de um prémio Pulitzer), podemos ver crescimento de Theo e como este lida com o seu trauma, após perder a mãe num violento ataque terrorista no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque. Dos escombros resta apenas uma memória ou uma promessa muito dolorosa: um Pintassilgo.
E é com extremo cuidado e sensibilidade que Crowley nos conduz através da vida deste rapaz. É nos dado a conhecer um Theo (interpretado por Ansel Elgort na versão adulta e Oakes Fegley na versão jovem) que guarda muito no seu interior, um peso que nenhuma criança deveria ter de carregar: o peso da culpa. O percurso que este faz para se encontrar a si mesmo, num mundo que parece estar constantemente contra ele, é de enternecer qualquer espectador, transmitindo uma mensagem muito clara: a sobrevivência é a maior prova da nossa resiliência nesta vida.
Mas também os objetos ganham uma importância nesta narrativa. O tato está muito presente e a relação que os humanos têm com os objetos que os rodeiam e como se afeiçoam a eles, se relacionam com estes objetos, parece ser um tema central. Para Theo é algo fulcral, pois é através de um objeto particular que este estabelece o maior contacto com o seu trauma e com a última memória que guarda da sua mãe.
Neste, que é maioritariamente um filme movido pelos atores, podemos vibrar ao ver prestações tão imponentes e tocantes, como a de Nicole Kidman – ela que interpreta Samantha Barbour, a mãe de um colega de Theo, que o acolhe provisoriamente. Mas também o próprio Oakes se destaca, retratando um pré-adolescente que está em constante luta consigo próprio e com os abusos que o mundo coloca sobre ele. As cenas que partilha com o hábil Finn Wolfhard – aqui a interpretar Boris, um ucraniano cosmopolitano e vítima da violência do pai – são cruas, divertidas e tocantes, talvez a melhor parte do filme.
Mas se este drama/mistério ganha folgo e forma à medida que avança e embrenhamos na psique do jovem Theo e do seu trauma, é a chegar ao final que temos a maior desilusão, quando o filme dá uma reviravolta e se torna num thriller, com gangues e armas, muito difícil de engolir. Apressado e sem grande sentido, parece que entramos num filme totalmente diferente cuja resolução é um preguiçoso deus ex machina.
Num filme que com tanta delicadeza expõe as suas personagens e as desenvolve; onde podemos encontrar belíssimas reflexões sobre o trauma e como este nos afeta, sobre o papel dos objetos e da arte no nosso quotidiano como obras eternas que vivem para lá de nós, sobre o papel das drogas, alcoolismo e violência doméstica na dilaceração de laços familiares, sobre a importância da amizade e o que significa crescer; onde os atores andam de mãos dadas com as suas personagens… Torna-se certamente enfadonho passar disso para um final tão “pequeno” e narrativamente frágil.
Classificação: ⭐️⭐️⭐️
Rui Ferreira